Pesquisadores da Cisco Talos identificaram um grupo cibercriminoso de língua chinesa, rastreado como UAT-10147, usando ferramentas e fluxos de trabalho baseados em inteligência artificial para ampliar ataques contra servidores Windows e Linux expostos à internet.

A campanha combina falhas conhecidas, ferramentas ofensivas disponíveis publicamente, malware personalizado e automações geradas ou apoiadas por IA. O objetivo observado é obter acesso aos servidores, manter persistência, roubar dados e realizar fraude de otimização de mecanismos de busca (SEO fraud).

O ponto mais relevante não é a descoberta de uma nova vulnerabilidade, mas a forma como o grupo passou a usar IA para tornar operações ofensivas mais rápidas e repetíveis. Segundo a Talos, foram observados guias operacionais, scripts de automação, validação de exploração, correção de falhas durante a execução e etapas de pós-exploração apoiadas por IA.

Servidores afetados foram identificados no Brasil, Bolívia, China, Canadá e Vietnã. Os setores atingidos incluem governo, educação, mídia, tecnologia e jogos.


O que significa usar agentes de IA em ataques

Neste caso, a IA não deve ser entendida como uma ferramenta que invade sistemas sozinha e sem qualquer operador. A investigação descreve uma orquestração ofensiva semiautônoma: pessoas definem os alvos e os objetivos, enquanto ferramentas de IA ajudam a executar, adaptar e validar tarefas técnicas ao longo do ataque.

Em ataques tradicionais, uma equipe criminosa precisa analisar cada ambiente, ajustar códigos quando algo falha, verificar se o acesso funcionou e preparar a persistência. Com IA e automação, parte dessas tarefas pode ser padronizada e executada em sequência, reduzindo tempo e esforço manual.

Uso comum de IAUso observado na campanha
Gerar um trecho isolado de códigoCriar guias operacionais e scripts para diferentes etapas da intrusão
Sugerir uma técnicaRefinar tentativas que falharam e validar se um payload funcionou
Apoiar uma tarefa pontualIntegrar reconhecimento, exploração, pós-exploração e persistência em um fluxo de trabalho

Essa diferença importa porque ataques mais automatizados podem reduzir o intervalo entre uma falha explorável ser encontrada e o invasor estabelecer acesso persistente no ambiente comprometido.


Como a campanha funciona

O UAT-10147 busca principalmente servidores web vulneráveis e acessíveis pela internet. Para o acesso inicial, o grupo explorou vulnerabilidades divulgadas publicamente em produtos e componentes como Zimbra Collaboration Suite, AjaxPro, Nacos e Telerik UI para ASP.NET AJAX.

Entre as falhas citadas pela Talos estão CVE-2022-27925, CVE-2021-23758, CVE-2021-29441, CVE-2021-29442 e CVE-2019-18935. São vulnerabilidades conhecidas, algumas antigas, o que reforça que a aplicação de atualizações e a remoção de serviços desnecessários continuam sendo controles essenciais.

Em alto nível, a cadeia de ataque observada segue este fluxo:

  1. O grupo identifica servidores web expostos e potencialmente vulneráveis.
  2. Explora uma falha conhecida para obter execução remota de código ou outro acesso inicial.
  3. Usa automações e ferramentas de IA para verificar o sucesso da exploração, coletar informações do ambiente e contornar problemas operacionais.
  4. Implanta web shells, backdoors ou outros componentes para manter o acesso.
  5. Eleva privilégios, tenta reduzir a visibilidade das ferramentas de segurança e executa ações de fraude de SEO ou roubo de dados.

Em servidores Windows, a Talos observou tentativas de criar persistência com tarefas agendadas enganosas e de adicionar diretórios às exclusões do Microsoft Defender. Em servidores Linux, o grupo explorou vulnerabilidades locais de elevação de privilégio após o acesso inicial e instalou mecanismos de persistência adicionais.


Por que a campanha preocupa empresas brasileiras

O Brasil aparece entre os países com servidores afetados observados pela Talos. A campanha não depende de uma falha inédita nem de um setor específico: ela aproveita sistemas expostos, desatualizados ou configurados de forma insegura.

Isso torna especialmente relevantes ambientes que mantêm portais, servidores IIS, aplicações Java, ferramentas de colaboração, painéis administrativos ou outros serviços acessíveis diretamente pela internet. Empresas menores também podem ser impactadas, pois a automação permite que criminosos avaliem muitos alvos sem investir o mesmo esforço manual em cada um.

O uso de IA tende a aumentar a velocidade e a consistência da operação. Não significa que toda tentativa será bem-sucedida, mas significa que erros de configuração, atualizações atrasadas e telemetria insuficiente podem ser explorados em um ritmo maior.


Como reduzir o risco

As recomendações principais são práticas já conhecidas, mas precisam ser tratadas como prioridade operacional:

  • Aplicar atualizações de segurança com rapidez, especialmente em serviços expostos à internet, em vulnerabilidades mais antigas e com exploração pública conhecida.
  • Manter um inventário de ativos externo, identificando quais sistemas, portas e aplicações realmente estão acessíveis pela internet.
  • Remover ou restringir serviços desnecessários, painéis administrativos e interfaces de teste que não precisam estar publicados.
  • Monitorar comportamentos de pós-exploração, como criação de contas locais, tarefas agendadas incomuns, alterações em exclusões de antivírus, web shells e conexões de saída anômalas.
  • Centralizar logs de servidores, aplicações e EDR, permitindo correlacionar exploração de vulnerabilidade, execução de processos e mudanças de configuração.
  • Definir procedimentos rápidos de contenção, pois decisões lentas de isolamento e investigação podem ampliar o impacto quando o atacante automatiza a persistência.
  • Validar a exposição de credenciais e chaves de aplicação, incluindo segredos usados por serviços web, para evitar que material sensível facilite a exploração de aplicações.

Também é recomendável revisar periodicamente os alertas e assinaturas disponibilizados por fornecedores de segurança e fontes de inteligência de ameaças. A Talos publicou indicadores de comprometimento e regras de detecção relacionadas à campanha, que podem apoiar as equipes na investigação de possíveis sinais de atividade.


Conclusão

O caso do UAT-10147 mostra uma mudança operacional relevante: a IA está sendo usada para conectar etapas que antes exigiam maior intervenção humana, como adaptar explorações, testar resultados, documentar procedimentos e automatizar a persistência após o comprometimento.

Porém, o vetor principal continua familiar: vulnerabilidades conhecidas em servidores expostos. A defesa mais eficaz começa por reduzir a superfície de ataque, corrigir falhas com agilidade, acompanhar atividades anômalas e manter capacidade de resposta proporcional à velocidade dos ataques automatizados.

Para mais detalhes sobre acesse UAT-10147: Adversário de língua chinesa integra IA ativa em operações pós-comprometimento

Lista de IOCs

Os indicadores de comprometimento (IOCs) também podem ser encontrados no repositório do GitHub da Cisco Talos aqui.

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https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/4/user[.]txt
https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/4/back[.]txt
https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/4/bai[.]txt
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https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/5/pr[.]exe
https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/5/bai[.]txt
https[:]//adminapi[.]tippusoni[.]in/5/svchosts[.]exe
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https[:]//kl21177[.]com/1/dll[.]zip
https[:]//kl21177[.]com/1/user[.]bat
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