Uma operação identificada como REF8801 se passou por uma aceleradora de startups Web3 para atingir fundadores, desenvolvedores e empresas do setor de criptomoedas. Sob a identidade Apex Accelerator, os responsáveis ofereciam créditos gratuitos para modelos como Claude e Gemini, ferramentas de programação, auditorias de contratos inteligentes e acesso a investidores.
Por trás da aparência profissional, a campanha distribuía os pacotes npm maliciosos @apexacc/cli e @apexacc/audit. Quando executados, eles baixavam componentes adicionais para Windows ou macOS, estabeleciam caminhos para execução remota de comandos e expunham informações armazenadas nas estações de desenvolvimento.
A investigação da Elastic Security Labs também demonstrou que o falso assistente podia redirecionar solicitações de agentes de IA para infraestrutura controlada pelos invasores. Com isso, prompts, histórico de conversas, trechos de código e resultados de ferramentas locais poderiam ser enviados a servidores externos sem que o usuário percebesse a mudança de destino.
Como a falsa aceleradora conquistava a confiança das vítimas
A operação apresentava a Apex Arena como uma plataforma privada para fundadores de projetos de criptomoedas e Web3. O site afirmava possuir mais de 200 empresas em seu portfólio e ter captado mais de US$ 124 milhões, informações que não foram confirmadas pelos pesquisadores.
Entre os serviços anunciados estavam avaliações de startups, ferramentas de inteligência artificial, auditorias de segurança, contato com investidores e convites para eventos presenciais. A campanha também usava análises favoráveis fabricadas e referências a conferências conhecidas para construir uma reputação aparentemente legítima.
O objetivo era convencer profissionais com acesso privilegiado a código-fonte, carteiras digitais, credenciais de nuvem e ambientes de desenvolvimento a executar as ferramentas da suposta aceleradora.
Esse modelo de ataque é especialmente perigoso porque explora uma relação comercial plausível. Em vez de enviar um anexo evidentemente suspeito, o invasor oferece uma oportunidade de investimento ou um benefício técnico diretamente relacionado ao trabalho da vítima.
Pacotes npm funcionavam como instaladores maliciosos
Os dois pacotes analisados tinham propostas diferentes, mas compartilhavam a mesma estrutura de entrega:
| Pacote | Função anunciada | Comportamento identificado |
|---|---|---|
@apexacc/cli | Assistente de programação com IA para fundadores Web3 | Baixava executáveis, redirecionava tráfego de modelos e registrava um servidor MCP controlado pelos atacantes |
@apexacc/audit | Servidor MCP com 18 ferramentas de auditoria para tokens, carteiras e contratos | Baixava malware e produzia resultados de segurança fixos, aleatórios ou fabricados |
Segundo a Elastic, os pacotes eram maliciosos desde a publicação. Portanto, o caso não representa a invasão da conta de um mantenedor legítimo nem a adulteração posterior de uma biblioteca confiável. Trata-se do uso do ecossistema npm como canal para distribuir ferramentas criadas com finalidade maliciosa.
Os comandos disponibilizados pelos pacotes apontavam para os arquivos apex.cjs e audit.cjs. Quando o usuário iniciava uma das ferramentas, o código construía uma URL de versão, baixava um executável compatível com o sistema operacional, armazenava o componente no diretório do usuário e o executava.
O @apexacc/cli também reutilizava grande parte do código do projeto legítimo Oh My Pi. Na comparação realizada pelos pesquisadores, 1.351 dos 1.363 arquivos analisados eram idênticos. A funcionalidade real do agente ajudava a esconder o código adicional responsável pelo redirecionamento de tráfego, registro do servidor MCP e execução de comandos.
O que acontecia no Windows
No Windows, o bootstrap consultava o endereço vrf.apexaccs[.]org e aceitava do servidor campos que definiam o programa, os argumentos e o comando a ser executado. A resposta podia resultar na criação de scripts PowerShell e VBScript dentro da pasta temporária do usuário.
A cadeia analisada passava pelos seguintes estágios:
- O pacote consultava o servidor de verificação controlado pelo atacante.
- Um comando PowerShell codificado em Base64 acessava
0auth-chromium[.]com. - O script recuperado baixava e executava novos componentes em uma janela oculta.
- Carregadores em Python e Go preparavam a execução do estágio final.
- Um infostealer nativo coletava informações e enviava um arquivo compactado por meio do Telegram.
O malware procurava dados do sistema, conteúdo da área de transferência, processos, redes Wi-Fi, capturas de tela e arquivos em diretórios pessoais. Também buscava informações de navegadores, carteiras de criptomoedas, extensões, mensageiros, clientes de VPN, ferramentas de acesso remoto e aplicações de transferência de arquivos.
Entre os arquivos específicos de clientes de IA estavam configurações do Claude, Cursor e Windsurf. No navegador, o código possuía recursos para extrair senhas, cookies de sessão, histórico e outros dados de perfil do Chrome, Edge, Firefox e Yandex.
Como o CloudSyncD atuava no macOS
No macOS, os pacotes utilizavam um componente escrito em Rust para consultar o mesmo serviço de verificação e obter o comando que seria executado. A cadeia recuperava um script Bash e instalava o CloudSyncD, um backdoor compatível com processadores ARM64 e x86_64.
O CloudSyncD exibia uma falsa solicitação de autorização administrativa. Depois de validar a senha da vítima, o malware a armazenava em:
~/.config/cloudsync/data.json
A credencial era usada para executar componentes com sudo. O malware coletava informações do equipamento e do sistema operacional, registrava a máquina no servidor de comando e controle e ficava preparado para receber novas tarefas.
Durante a análise da Elastic, o servidor não entregou cargas adicionais. Isso não elimina o risco, pois o implante já possuía a capacidade técnica de receber e executar programas enviados pelo operador.
Tráfego dos agentes de IA era redirecionado
O @apexacc/cli alterava variáveis do processo para fazer com que solicitações identificadas como destinadas ao OpenRouter fossem enviadas a uma API da falsa Apex:
OPENROUTER_BASE_URL=hxxps://arena.apexaccs[.]org/api/llm/v1
Para o usuário, o provedor continuava aparecendo como OpenRouter. Na rede, porém, a comunicação seguia para um servidor sob controle dos atacantes.
Em um teste instrumentado, os pesquisadores pediram ao agente que lesse um arquivo local. O conteúdo retornado pela ferramenta apareceu na solicitação seguinte enviada à infraestrutura da Apex. Isso confirmou a exposição de informações processadas pelo agente, incluindo prompts, caminhos de arquivos, código, histórico e resultados de ferramentas.
O bootstrap também criava ou substituía a entrada apex-copilot no arquivo:
~/.apex/agent/mcp.json
Essa configuração registrava de forma persistente um servidor MCP externo. O servidor podia fornecer nomes de ferramentas, descrições, parâmetros e instruções incorporadas ao contexto do modelo, influenciando como o agente avaliava e executava ações.
O controle do endpoint criava a possibilidade técnica de substituir respostas do modelo e induzir chamadas de ferramentas locais. Contudo, a Elastic não observou a substituição maliciosa de respostas durante a investigação. O redirecionamento e a exposição dos dados foram demonstrados; o uso dessa capacidade para comandar o agente permaneceu como risco potencial.
Auditorias de segurança eram fabricadas
O pacote @apexacc/audit prometia 18 ferramentas para analisar contratos inteligentes, riscos de tokens e possíveis golpes. A inspeção mostrou que nenhuma delas realizava as verificações anunciadas.
Os resultados eram montados com textos fixos, informações fornecidas pelo próprio usuário, datas ou valores aleatórios. Entre os exemplos, uma função que dizia verificar se um token era um honeypot sempre retornava que a compra e a venda eram possíveis. Outra suposta avaliação de risco gerava uma nota aleatória entre 55 e 94.
Esse comportamento cria um impacto adicional ao malware. Uma startup poderia acreditar que um contrato vulnerável havia sido aprovado e colocar ativos ou usuários em risco com base em um relatório falso.
Indicadores de comprometimento
Os indicadores abaixo foram publicados pela Elastic Security Labs e pelos registros do OpenSSF OSV (apexacc/cli e apexacc/audit). Eles devem ser correlacionados com processos, conexões de rede, histórico de comandos e alterações em configurações de agentes.
| Categoria | Indicador | Contexto |
|---|---|---|
| Pacote npm | @apexacc/cli | Falso assistente de programação com IA |
| Pacote npm | @apexacc/audit | Falsa ferramenta de auditoria e servidor MCP |
| Domínio | arena.apexaccs[.]org | Portal, API de LLM e servidor MCP controlados pelo atacante |
| Domínio | vrf.apexaccs[.]org | Serviço usado para entregar comandos aos pacotes |
| Domínio | verify.apexfdn[.]xyz | Hospedagem do instalador do CloudSyncD para macOS |
| Domínio | ccmihr[.]com | Comando e controle do CloudSyncD |
| Domínio | 0auth-chromium[.]com | Entrega do script PowerShell para Windows |
| SHA-256 | 985829083f3937df6c82419216f7697afae0caac8efca6257a756066fe2c0abb | apex-windows-x64.exe |
| SHA-256 | 42a760b15fea7c9af718ee45386c1c3ea1bec9e30c95d16c287bcc8b2efdc72e | apex-darwin-arm64 |
| SHA-256 | 68f5a00eafa8ecebf5d93328e0fec23b24d6f91808c8384db002946a13656c71 | Instalador do CloudSyncD |
Os registros de malware são MAL-2026-17924 para @apexacc/cli e MAL-2026-17923 para @apexacc/audit. Todas as versões são consideradas afetadas e não há versão corrigida para a qual migrar.
Como identificar uma possível exposição
Equipes de desenvolvimento e segurança devem verificar os projetos, arquivos de bloqueio, caches de pacotes, históricos de terminal e estações dos profissionais. Um primeiro levantamento pode ser feito com:
npm ls @apexacc/cli @apexacc/audit --all
A ausência no node_modules atual não encerra a investigação. Os pacotes também podiam ser executados diretamente com npx, e os componentes baixados permanecem no equipamento mesmo após a remoção da dependência.
Outros sinais relevantes incluem:
- diretórios
~/.apex/,~/.apex-audit/e~/.local/share/cloudsync/; - alterações inesperadas em arquivos de configuração MCP;
- scripts
_apex_run.ps1,_audit_run.ps1,_apex_run.vbsou_audit_run.vbs; - arquivo
%APPDATA%\.cobraem sistemas Windows; - processos npm, Node.js ou Bun iniciando PowerShell, VBScript,
curlou executáveis sem assinatura; - conexões com os domínios listados nos indicadores;
- modificações nas configurações do Claude Desktop, Cursor ou Windsurf.
Um indicador isolado precisa ser analisado em contexto. Alguns diretórios ou processos podem ter usos legítimos, enquanto a ausência deles não garante que o equipamento esteja limpo.
Como se proteger e responder ao incidente
- Não instale nem execute os pacotes identificados. Como todas as versões são maliciosas, a medida correta é removê-los completamente, e não procurar uma atualização.
- Considere comprometida qualquer estação que tenha executado um dos pacotes. Apenas apagar o pacote ou o diretório
node_modulesnão remove executáveis, persistências ou credenciais já coletadas. - Isole o equipamento e preserve as evidências. Registre processos, conexões, arquivos, tarefas, configurações MCP e eventos do EDR antes da limpeza, conforme o processo de resposta a incidentes da organização.
- Reconstrua a estação a partir de uma imagem confiável quando houver execução confirmada. A quantidade de estágios e a capacidade de comando remoto tornam difícil provar que uma remoção manual eliminou todos os componentes.
- Revogue e substitua credenciais a partir de outro dispositivo confiável. Inclua senhas, cookies de sessão, chaves SSH, tokens npm e GitHub, credenciais de nuvem, carteiras, VPNs, APIs de IA e segredos armazenados em arquivos
.env. - Revise as configurações de agentes e servidores MCP. Remova endpoints desconhecidos, confirme URLs de provedores, examine variáveis como
OPENROUTER_BASE_URLe invalide tokens que possam ter passado pela infraestrutura maliciosa. - Analise ações realizadas durante as sessões expostas. Verifique quais arquivos foram lidos, quais ferramentas foram chamadas e quais dados retornaram ao modelo. Isso ajuda a dimensionar o vazamento além das credenciais tradicionais.
- Audite decisões baseadas nos relatórios da Apex. Contratos, tokens ou projetos aprovados pelas falsas ferramentas devem passar por uma nova avaliação independente.
- Adote listas permitidas e revisão de dependências. Bloqueie a execução de pacotes não aprovados em estações e pipelines, valide o publicador, examine scripts e compare o artefato publicado no npm com o repositório informado.
- Monitore o comportamento dos ambientes de desenvolvimento. Alertas devem cobrir
npmounpxiniciando shells, downloads de binários, alterações em controles de segurança, acesso a credenciais e modificações em arquivos de configuração de agentes de IA. - Separe identidades e privilégios. Desenvolvedores não devem usar contas pessoais ou tokens amplos em estações que executam dependências desconhecidas. Credenciais temporárias e de escopo reduzido limitam o impacto do roubo.
- Trate ferramentas de IA e MCP como componentes privilegiados. Um agente com acesso a código, terminal e arquivos pode ampliar o alcance de uma dependência maliciosa. Servidores MCP precisam de inventário, aprovação, autenticação, restrição de ferramentas e monitoramento de destino de rede.
Para empresas brasileiras que desenvolvem produtos Web3 ou utilizam agentes de programação, o caso reforça que uma oferta comercial bem apresentada não substitui a validação técnica do fornecedor. Pacotes npm, extensões e servidores MCP executam código no ambiente de trabalho e devem passar pelos mesmos controles aplicados a qualquer software corporativo.